Bancárias e bancários de todo o Brasil deram início, nesta sexta-feira, 28 de julho, em São Paulo, à 19ª Conferência Nacional dos Bancários. O primeiro painel expositivo do evento foi coordenado pela presidenta do Sindicato, Eliana Brasil, e tratou da importância da defesa dos bancos públicos.

Para trazer informações e refletir sobre o tema, estiveram presentes o sociólogo Emir Sader, o representante eleito dos funcionários do Banco do Brasil no Conselho de Administração do banco, Fabiano Felix, e a representante eleita dos empregados da CAIXA no Conselho de Administração, Rita Serrano.

Em sua exposição, o sociólogo Emir Sader tratou do grave período vivido atualmente de ataques aos direitos e a tudo aquilo que é público. Citando a campanha “Se é público é para todos”, Emir explicou que a essência do neoliberalismo está em transformar tudo em mercadoria, inclusive serviços básicos como a saúde e a educação.

O sociólogo abordou a diferença entre a esfera pública e a esfera mercantil, destacando a importância do posicionamento do Estado nessa relação. “A esfera pública é a esfera dos direitos, não da mercadoria. É aquela em que o sujeito não é consumidor, mas sim cidadão. E é isso o que define os governos progressistas, que fortalecem os direitos e a cidadania”, explicou.

Já o governo Temer, para Emir, representa justamente a mercantilização da sociedade, através da expropriação de direitos dos trabalhadores e da alienação do patrimônio público. É neste contexto que ocorre o ataque aos bancos públicos em benefício dos bancos privados. “Os bancos privados, hoje, vivem de comprar e vender papeis, do endividamento de governos, empresas, pessoas e famílias. A lógica é especulativa e não visa retomar o desenvolvimento econômico, mas sim concentrar a renda. Querem impor ao Brasil que não seja mais uma nação, um país, mas sim um mercado”, afirmou.

Emir Sader destacou que é fundamental compreender a lógica e as diferenças entre bancos privados e bancos públicos. Os bancos públicos existem para apoiar políticas de governo, fomentar políticas sociais e para garantir mais distribuição de renda. Para o sociólogo, o que ocorre hoje é uma preparação para o desmonte destes bancos.

“Temos agora uma luta de ideias. O atual governo tenta consolidar a ideia de que é preciso cortar tudo, mas isto é uma mentira. Os recursos existem, mas estão sendo canalizados para a esfera especulativa. É a luta entre os interesses mercantis e a verdadeira retomada do crescimento, com afirmação de direitos e da soberania nacional”, explicou.

Ataque ao papel social dos bancos

O conselheiro eleito pelos funcionários do Banco do Brasil para o Conselho de Administração do banco, Fabiano Felix, também criticou a disseminação de ideias conservadoras, que cresceram desde as eleições presidenciais de 2014 e visam atacar direitos e a organização dos trabalhadores.

“O capital financeiro e os bancos têm papel efetivo nessa disseminação organizada de uma doutrina individualista. Nos bancos públicos, é evidente que o ataque também é muito bem orquestrado”, afirmou Fabiano.

No Banco do Brasil, por exemplo, hoje se vivencia um debate extremamente prejudicial à própria identidade do banco. É a apologia ao fenômeno da digitalização, que leva ao fechamento de agências, muitas delas que não tinham resultados superavitários em um sentido econômico mas que representavam um importante papel social.

“A presença dos bancos públicos em pequenas localidades transcende a questão econômica e tem um papel estratégico para aquela sociedade. Representa a oferta de crédito à população para que aquela economia não para e siga se desenvolvendo”, explicou Fabiano Felix.

Segundo o bancário, estas teses neoliberais são cíclicas, mudando apenas de forma. Na prática, o conteúdo é o mesmo da era FHC: a ideia do Estado mínimo. O discurso de redução de custos serve apenas a uma parcela da população, expulsando os mais pobres das agências e deixando de lado o papel social dos bancos públicos.

“Temos uma grande luta pela frente. A força da nossa militância e nossa capacidade de insurgir contra esses desmandos é que vão nos manter firmes na defesa dos bancos públicos, que são extremamente importantes para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Temos que suscitar em nossos colegas a capacidade de luta e de resistência contra estes ataques”, concluiu Fabiano.

CAIXA sob ameaça

A representante dos empregados da CAIXA no Conselho de Administração do banco, Rita Serrano, ressaltou que, quando se fala sobre os ataques aos bancos públicos, se está falando de um ataque a tudo que é público no Brasil. Isto envolve o sucateamento das estatais para dar espaço ao capital privado.

“Esta é uma lógica muito rápida. Na década de 1990, nós tivemos derrotas, mas conseguimos manter a CAIXA, o BB, a Petrobras. Agora, mais uma vez, temos que ser ágeis para combater esta política de desmonte”, afirmou Rita.

Mostrando dados do setor bancário, Rita Serrano demonstrou a importância dos bancos públicos para o desenvolvimento do Brasil, sendo a CAIXA com o crédito habitacional, o BB no crédito agrícola ou o BNDES como maior financiador da indústria nacional. Em 2016, 56% do crédito no país veio dos bancos públicos.

Porém, em 2017, pela primeira vez na sua história, a CAIXA paralisou a oferta de crédito com a justificativa de economizar. Esta política leva também ao fechamento de agências, corte no número de empregados, fechamento de áreas intermediárias e aumento de tarifas para que a CAIXA se iguale aos bancos privados.

Além disso, há grandes ameaças na venda de ativos, como as loterias, área de seguros e cartão de crédito, assim como a privatização ou esvaziamento do FGTS, que representa 40% do patrimônio da CAIXA. Isto trará consequências drásticas para toda a sociedade brasileira, desmontando o banco e acabando com seu importante papel social.

“A conjuntura é difícil e desafiadora, mas entendo que ela também é rica, pois nos obriga a repensar nossa organização e a oxigenar todo o nosso debate em busca de alternativas diferentes. Nos últimos anos, tivemos grandes vitórias, mantivemos empresas públicas, enfrentamos o PLS 555, assinamos um acordo de dois anos que está garantindo o aumento real para os bancários neste ano. Estamos em um momento de desafios, mas temos muita coisa ainda a ganhar se reforçarmos nossa organização”, afirmou Rita Serrano.

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