O dia 31 de março de 1964 foi o início de um capítulo triste e trágico da história brasileira. Neste dia, foi perpetrado o golpe que deu origem a uma ditadura militar dura e sangrenta no Brasil, que durou 21 anos. Foram duas décadas de terror, repressão, perseguições, prisões arbitrárias e assassinatos, com mais de 400 brasileiros mortos pelos órgãos de repressão.

Mesmo diante dos registros históricos, o presidente Jair Bolsonaro determinou ao Ministério da Defesa que sejam feitas comemorações em unidades militares para marcar o início da ditadura militar no Brasil.

A reação à determinação de Bolsonaro foi imediata. Atos foram marcados em diversas cidades, lideranças políticas se manifestaram em repúdio à medida e órgãos federais, como o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, condenaram a postura do governo.

O Sindicato repudia a orientação de Bolsonaro e reafirma sua defesa intransigente da democracia. Com oito décadas de existência, a entidade passou pela ditadura militar e sofreu intervenção do regime, além dos diversos dirigentes perseguidos e presos por lutarem em defesa dos trabalhadores.

Data já tinha sido abolida

Em 2011, por determinação da ex-presidenta Dilma Rousseff, que foi duramente torturada por agentes do regime ditatorial, a data já havia sido retirada do calendário oficial de comemorações das Forças Armadas.

Agora, o capitão reformado Bolsonaro, que já chegou a homenagear o torturador Ustra, quer trazer novamente a lembrança de um período sombrio da história que os brasileiros não querem mais viver.

Reações institucionais

A determinação de Bolsonaro foi condenada também por órgãos federais. Em nota, o Ministério Público Federal (MPF) disse que comemorar a ditadura é “festejar um regime inconstitucional e responsável por graves crimes de violação aos direitos humanos”.

“É incompatível com o Estado Democrático de Direito festejar um golpe de Estado e um regime que adotou políticas de violações sistemáticas aos direitos humanos e cometeu crimes internacionais”, afirmou o órgão.

Já a Defensoria Pública da União ingressou com uma Ação Civil, na 9ª Vara Federal Cível de Brasília, determinando que a União e as Forças Armadas não realizem qualquer evento. Na ação, a defensoria proíbe, especialmente, o uso de recursos públicos para esse fim, sob pena de multa e caracterização de ato de improbidade administrativa.

Ação Popular

Um grupo formado por vítimas da ditadura protocolou, no dia 27 de março, um Mandado de Segurança e uma Ação Popular contra Bolsonaro. Os autores são vítimas ou familiares de vítimas reconhecidas pela Comissão Nacional da Verdade em seu relatório final publicado em 2014.

Eles argumentam que a orientação do governo viola a Constituição Federal e descumpre tratados e jurisprudência internacionais, como a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que condenou o Brasil no caso Gomes Lund, assassinado na Guerrilha do Araguaia.

Filmes sobre a ditadura militar

Diversos filmes brasileiros contaram histórias vividas durante o regime militar. Veja, abaixo, uma lista com 18 produções cinematográficas que abordam o período de terror:

(Fonte: Estadão)

O DESAFIO, DE PAULO CÉSAR SARACENI (1965) – Primeira “reação” cinematográfica ao golpe de 1964, narra o romance da mulher de um industrial e um jornalista de esquerda (Oduvaldo Vianna Filho) em crise política e de identidade.

TERRA EM TRANSE, DE GLAUBER ROCHA (1967) – A obra-prima do período, tenta entender, de forma alegórica, as razões da não resistência ao golpe contra a democracia. É dos raros filmes que procuram compreender as estruturas sociais que fazem tão frágeis as instituições brasileiras. É mais do que atual.

CABRA MARCADO PARA MORRER (1964-1984) – É a obra referencial do período militar. As filmagens de uma obra de ficção sobre um líder camponês, interrompidas pelo golpe, só seriam retomadas às vésperas da redemocratização, agora já buscando o paradeiro dos personagens originais.

O BOM BURGUÊS, DE OSWALDO CALDEIRA (1979) – Conta a história de um funcionário do Banco do Brasil que desviava dinheiro para a luta armada contra o regime. Inspirado no caso verídico do roubo do “cofre do Adhemar” por grupos armados.

PRA FRENTE BRASIL, DE ROBERTO FARIAS (1982) – Filme que provocou tensão quando lançado ainda em pleno regime militar. Conta a história de um homem confundido com militante político que é torturado nos quartéis do aparelho repressor.

JANGO, DE SILVIO TENDLER (1984) – Um dos documentários de maior sucesso do cinema brasileiro, relata o tempo febril do governo de João Goulart e a articulação de direita para derrubá-lo.

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, DE MURILO SALLES (1984) – Baseado em relato de João Gilberto Noll, conta, em tom sutil, o relacionamento de um adolescente com seu pai, militante clandestino da resistência.

QUE BOM TE VER VIVA, DE LÚCIA MURAT (1989) – Tendo ela própria sido presa política, a diretora Lucia Murat resgata a memória de um grupo de mulheres que pegaram em armas contra o regime militar.

LAMARCA, DE SÉRGIO REZENDE (1994) – Cinebiografia de Carlos Lamarca (vivido por Paulo Betti), um dos líderes da luta armada contra o regime, morto na Bahia pelos órgãos de repressão.

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO?, DE BRUNO BARRETO (1997) – Baseado no bestseller de Fernando Gabeira, narra a saga do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. O objetivo da ação, bem-sucedida, era trocar o refém por prisioneiros políticos.

BATISMO DE SANGUE, DE HELVÉCIO RATTON (2007) – Relato da trágica trajetória de Frei Tito Alencar, dominicano que, preso e torturado, não resistiu às sequelas da prisão e suicidou-se na França.

HÉRCULES 56, DE SILVIO DA-RIN (2007) – O documentário reúne os sobreviventes do grupo trocado pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969 por organizações de esquerda. O título refere-se à matrícula do avião da FAB que levou os ativistas para o exílio.

CIDADÃO BOILESEN, DE CHAIM LITEWSKI (2009) – Rara produção que fala dos vínculos do empresariado com a repressão política, através do perfil do empresário dinamarquês Hanning Albert Boilensen, do grupo Ultragás, acusado de financiar a tortura durante o regime militar.

O DIA QUE DUROU 21 ANOS, DE CAMILO TAVARES (2013) – Documentário bastante completo, destaca a participação dos Estados Unidos no golpe que derrubou o presidente João Goulart em 1964.

70, DE EMILIA SILVEIRA (2015) – O filme ouve as histórias de vida de alguns dos 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher em 1970. O detalhe é que não falta humor à narrativa de eventos às vezes tão dramáticos.

SOLDADOS DO ARAGUAIA, DE BELISÁRIO FRANCA (2017) – Documentário conta a história da guerrilha (1967-1974) pelas vozes de soldados locais, convocados compulsoriamente pelo Exército para lutar contra os guerrilheiros.

DESLEMBRO, DE FLAVIA CASTRO (2018) – Quando a anistia é decretada no Brasil, Joana precisa voltar ao Rio de Janeiro, cidade onde nasceu. Apaixonada por música e literatura, a adolescente, que deixou o País muito pequena, deve largar Paris para escrever sua vida em um lugar do qual mal se lembra.

MARIGHELLA, DE WAGNER MOURA (2019) – Biografia do guerrilheiro com Seu Jorge no papel principal, primeira direção de Wagner Moura, estreou no Festival de Berlim deste ano, e ainda não tem data para estrear no Brasil.

 

Fonte: Sindicato dos Bancários de BH e Região com CUT e Estadão

 

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