Bancárias e bancários realizaram, na tarde deste sábado, 9, um painel para discutir dados e rumos do sistema financeiro brasileiro.  Para tratar do tema, estiveram presentes a coordenadora executiva do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Elici Bueno, a economista do Dieese Vivian Machado e a técnica do Dieese e cientista social Barbara Vallejos.

Segundo Elici Bueno, do Idec, hoje no Brasil se percebe que os bancos têm poucas políticas voltadas para os direitos dos consumidores, direitos humanos e direitos trabalhistas. Além disso, têm os juros de cartão de crédito mais altos do mundo, ultrapassando 200% ao ano. Para se ter ideia, o segundo lugar mundial é a argentina, onde estes juros não passam de 60%.

Outro grave problema que envolve os bancos no país é o superendividamento, que atinge 62 milhões de brasileiros. De acordo com o Idec, os brasileiros sofrem ainda com os contratos com linguagem pouco clara dos bancos, que também não têm repassado as diminuições da taxa Selic aos clientes.

Em relação às novas tecnologias, a economista Vivian Machado apresentou dados em sua exposição que mostram o crescimento das transações realizadas por meio do celular (mobile), que já ultrapassam um terço do total. Ao mesmo tempo, caem as transações nas agências, chegando a apenas 8% de acordo com os últimos dados.

O crescimento no número de agências digitais, que triplicaram em quantidade de 2016 para 2017, também preocupa. Paralelamente, Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil fecharam 1.882 agências físicas em relação ao maior número de unidades que já tiveram.

Vivian também destacou que, independente do cenário econômico, os lucros dos bancos seguem cada vez maiores. Os cinco maiores bancos do Brasil lucraram, em 2017, R$ 77,4 bilhões, com crescimento de 33,5% em 12 meses. A tendência se mantém em 2018, com alta de 20,4% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano passado.

Os grandes lucros se devem, principalmente, à alta rentabilidade dos bancos. O spread bancário – que é a diferença entre os juros pagos para captar recursos no mercado e o que cobram dos clientes – chega a 38,4%, sendo o mais alto no mundo. Já a média mundial é de apenas 4,7%.

Isto tudo sem falar do fechamento de milhares de postos de trabalho, contribuindo para o desemprego no país. Desde 2013, os bancos já cortaram 57.677 empregos no Brasil.

Todo este cenário contribui para a desigualdade no país, fato que se aprofundou após o golpe de 2016. Segundo Barbara Vallejos, técnica do Dieese, o setor financeiro tem grande papel na reconcentração de renda e na geração de pobreza e pobreza extrema. Hoje, no Brasil, os 6 bilionários mais ricos concentram a mesma riqueza que 50% da população.

Outro fator que acentua as injustiças sociais é a nova lei trabalhista. Apesar de ter sido aprovada sob a justificativa da redução do desemprego, não se verificou grandes variações na taxa nos seis meses desde que a reforma entrou em vigor.

O último dado aponta que o índice de desemprego no Brasil é de 12,9%. Além disso, cresce o número de trabalhadores sem carteira assinada, ao mesmo tempo em que os empregos com carteira têm saldos seguidamente negativos.

A reforma trabalhista também atacou um importante instrumento que contribui para a melhor distribuição das riquezas no Brasil: os sindicatos. Além de desarticular as negociações, a nova lei retirou as formas de financiamento destas entidades, enfraquecendo a organização dos trabalhadores para lutar por seus direitos.

Segundo Barbara Vallejos, as consequências já se apresentam na queda de acordos e convenções coletivas assinadas no país, que tiveram queda de 42% desde que a reforma entrou em vigor. Isto se deve ao fato de que patrões têm oferecido cláusulas muito piores nos acordos, inviabilizando sua assinatura pelos representantes dos trabalhadores. Até o aumento real tem sido conquistado por cada vez menos categorias, mesmo no atual cenário de inflação baixa.

A técnica do Dieese concluiu sua análise afirmando que é fundamental que os movimentos sociais e as entidades que defendem os trabalhadores, mais do que nunca, pensem em grandes projetos para o Brasil. Dentre eles, é essencial e urgente repensar o sistema financeiro nacional.

 

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