Com a pandemia da Covid-19, processos que já estavam em andamento no setor bancário e no mundo do trabalho foram aprofundados e agilizados. Entre eles, estão principalmente a digitalização e a implantação do trabalho remoto para grande parte da categoria. Diante destes novos desafios para os trabalhadores, o tema foi tratado na terceira mesa da 22ª Conferência Nacional dos Bancários.

No primeiro trimestre de 2020, que abrangeu apenas cerca de 15 dias de isolamento social no Brasil, os maiores bancos do país já apresentaram reduções consideráveis nos lucros em relação ao mesmo período de 2019. Isto se deve ao aumento nas provisões para devedores duvidosos (PDD), devido à elevação do risco dos empréstimos, à tendência de queda nos juros e à competição com fintechs e novas plataformas.

Segundo o economista do Dieese, Gustavo Cavarzan, devido à queda nos lucros, os bancos miram uma forte redução de despesas de pessoal e administrativas, que somaram cerca de R$ 180 bilhões no último ano. “Neste sentido, a digitalização e a adoção do teletrabalho são dois processos com altíssima capacidade de reduzir custos fixos para que os bancos consigam retomar o patamar de rentabilidade”, afirmou.

A digitalização, que já vinha se expandindo desde 2012, também apresentou um salto com a pandemia. Segundo dados apresentados pelo Dieese, em abril de 2020, as transações realizadas por meios digitais representaram 67% do número total. É importante destacar, também, que o orçamento dos bancos com tecnologia já havia chegado a R$ 25 bilhões em 2019.

Em relação ao emprego, o setor bancário vem enfrentando fortes cortes nos postos de trabalho, com saldo negativo de 70 mil desde 2013. Ao mesmo tempo, segmentos periféricos como seguros e planos de saúde estão se expandindo. Seguindo a mesma tendência, já foram fechadas 3.400 agências físicas no Brasil desde 2014.

Home office

A socióloga técnica do Dieese, Barbara Vallejos, apresentou aos delegados e delegadas da Conferência Nacional os resultados da pesquisa realizada em parceria com a Contraf-CUT para analisar a realidade do home office na categoria. O estudo contou com 11.133 respondentes de todo o Brasil.

Atualmente, cerca de 230 mil bancários estão em regime de trabalho remoto no Brasil. A pesquisa apontou que 78,3% dos respondentes estão ou já passaram pelo home office. Destes, 75,6% estão em trabalho completamente remoto e 9,8% adotam o sistema de rodízio.

Em relação aos problemas enfrentados, mais de 50% dos bancários consideraram ruins ou muito ruins os equipamentos de ergonomia utilizados no home office. Dos respondentes, 32,5% afirmaram que os bancos não ofereceram nenhuma estrutura para a realização do trabalho em casa, enquanto 50,8% receberam computadores para desempenhar suas funções.

Entre os desafios apontados por Barbara Vallejos para a execução do trabalho remoto, estão principalmente a autogestão dos trabalhadores. Neste sentido, as pesquisas apontam que 51,7% dos trabalhadores não têm ou não sabem da existência de algum contato ndo banco para resolver adequações relacionadas ao home office.

Em relação às horas trabalhadas, 58,9% dos bancários afirmaram que a jornada permaneceu igual e 35,6% apontaram que houve aumento no tempo trabalhado. O controle desta jornada tem sido feito por registro eletrônico para 50,7% dos trabalhadores. Já 32,3% dos respondentes afirmaram que não há qualquer controle.

Outra preocupação se deve às horas extras da categoria, já que 25,9% dos bancários afirmaram que não estão recebendo pelo trabalho extraordinário nem estão computando este trabalho em banco de horas.

A pesquisa também questionou os trabalhadores sobre os impactos do trabalho na saúde. O principal problema apontado foi a preocupação constante de bancárias e bancários com o trabalho, que atinge mais de 70% dos respondentes. Outras questões que chamam atenção são as dores musculares, a ansiedade, o cansaço e a fadiga constante.

Especificamente no home office, o principal novo fenômeno apontado pela pesquisa é o medo dos trabalhadores de ser esquecidos, de perder oportunidades ou de serem dispensados.

“Todos os problemas foram agravados no home office. Há um crescimento do desconforto da categoria com sintomas de saúde que já existiam mas, agora, aparecem de forma mais intensa. E é preciso destacar que o trabalho remoto para a maior parte dos bancários foi estabelecido há apenas quatro meses”, destacou Barbara Vallejos.

Entre diversos dados apresentados pelo Dieese, também devem ser pontos importantes das negociações com os bancos a transferência dos custos administrativos do trabalho para os trabalhadores e as diferenças observadas em relação ao gênero e à configuração domiciliar dos bancários.

Segundo a pesquisa, após a pandemia, 42% dos trabalhadores querem realizar um regime misto de trabalho, com dias de trabalho em casa e dias na estrutura do banco, 27,7% querem adotar o home office definitivamente e 26,5% querem retornar totalmente ao trabalho presencial.

“A categoria precisa discutir questões como a jornada de trabalho, condições de saúde e a gestão desta forma de trabalho para que ela não seja completamente empurrada pelos bancos. Temos que estar atentos para que os custos não sejam totalmente repassados para os bancários e também pensar na representação sindical destes trabalhadores”, afirmou Barbara Vallejos.

A técnica do Dieese chamou atenção ainda para o impacto psíquico deste modelo de trabalho. “O home office gera um aprofundamento da responsabilização constante para que o trabalhador seja seu próprio gestor e sabemos o impacto que isso tem na questão psíquica. As pessoas têm cada vez menos espaço para descanso e ficam cada vez mais ocupadas por um fluxo constante de trabalhos. Por isso, temos que estar preparados para negociar condições dignas de trabalho com os bancos”, ressaltou Barbara.

Regulamentação do teletrabalho

O assessor jurídico da Contraf-CUT, Jefferson Oliveira, apresentou um panorama sobre a legislação já existente no Brasil para a regulamentação do teletrabalho.

Segundo Jefferson, a reforma trabalhista de 2017 trouxe importantes impactos na legislação ao incluir o regime de teletrabalho no artigo 62 da CLT. Este artigo exclui os trabalhadores das garantias de duração do trabalho e do controle de jornada, o que tem implicações sobre os intervalos, horas extras e horário noturno por exemplo.

Além disso, a reforma trabalhista trouxe artigos para regrar o teletrabalho, conceituado como aquele prestado preponderantemente fora das dependências do empregador e com o uso de tecnologias de comunicação e informação. Ainda segundo a reforma, a transformação do trabalho presencial em teletrabalho só pode ocorrer por mútuo acordo entre empregado e empregador.

Em relação à estrutura para o trabalho remoto, Jefferson explicou que qualquer cessão de equipamento ou mesmo o reembolso de custos devem ser discutidos e pactuados em contrato aditivo, não podendo esta disponibilização integrar, de forma alguma, a remuneração do empregado.

Por fim, a reforma trabalhista estabeleceu que, ao estabelecer um acordo para teletrabalho, o empregador deve, necessariamente e de maneira expressa e ostensiva, orientar o empregado sobre formas de evitar doenças e acidentes de trabalho.

“O regramento que existe hoje é muito insuficiente e, por isso, é necessário que a categoria realize a adequação destas regras para o que ocorre efetivamente no setor bancário para que possa negociar com os bancos”, destacou o assessor jurídico da Contraf-CUT

 

Fonte: Sindicato dos Bancários de BH e Região

 

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