O Brasil possui 64 milhões de pessoas negativadas, com o nome “sujo”. Milhões de pequenas e médias empresas também estão endividadas. Com isso, o sistema financeiro retira das famílias e das empresas o equivalente a 16% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o economista Ladislau Dowbor, enquanto na Europa o máximo cobrado do consumidor, nas compras a prazo, é 13% ao ano, no Brasil a média está em 129%.

Com empresas paralisadas e famílias endividadas, consequentemente os impostos arrecadados sobre consumo e produção caem violentamente. “E quebra o Estado, pois famílias, empresas, além do próprio Estado, são os motores da economia”, afirma o economista.

Só de juros sobre a dívida pública, o Estado brasileiro paga 6% do PIB, cerca de R$ 370 bilhões, considerando o PIB brasileiro, hoje, em R$ 6,3 trilhões. “Esse dinheiro, que deveria servir para infraestrutura e políticas sociais – em saúde e educação ou investimento público no desenvolvimento –, se transforma apenas em fluxo de juros. E ainda por cima querem, agora, se apropriar também da Previdência”, explica.

Com os impostos desviados dos investimentos para os lucros do sistema bancário, a soma dos 6% que vão para a dívida pública com os 16% tirados das famílias e das empresas, são 22% só de juros, sem reduzir o estoque da dívida. Para Dowbor, nenhuma economia pode funcionar assim.

Foto: Divulgação/dowbor.org

O economista lembra que o Brasil ainda tem o deletério problema da evasão fiscal, que somava R$ 570 bilhões em 2016, o equivalente a 9,1% do PIB segundo estimativa do Sindicato Nacional de Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz).

Como se estes dados acima não bastassem, o sistema tributário regressivo (quem tem menos paga proporcionalmente mais), em vez de corrigir, agrava as injustiças e a incapacidade crescente do Estado investir.

Esses são alguns dos tópicos abordados pelo economista no debate “O Brasil e o capital improdutivo – Conversa com Ladislau Dowbor”, na livraria Tapera Taperá, no centro de São Paulo, a partir do livro de sua autoria “A era do capital improdutivo”. A obra, de acordo com ele, é escrita em linguagem que o leitor comum possa entender.

Para Dowbor, a luz no fim do túnel que aponta para a superação desse sistema no qual “os bancos praticam a agiotagem legal” é evidente, embora de difícil implementação. “É preciso taxar os capitais improdutivos, fazer a reforma tributária, reduzir as taxas de juros para pessoas físicas (nos crediários, cheque especial e no rotativo do cartão), reduzir os juros sobre pessoa jurídica. No mundo, as taxas de juros para pessoa física estão na faixa de 4 a 6% ao ano. Aqui, é isso por mês”, afirma.

Em seu livro, o estudioso lembra que, nos dois governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e no primeiro de Dilma Rousseff, a base popular de consumo foi fortemente incentivada com políticas como os programas de distribuição de renda (Bolsa Família, por exemplo), elevação do salário mínimo e outras.

Na época, o chamado “círculo virtuoso” era baseado em uma dinâmica de crescimento que, por sua vez, permitia financiar as próprias políticas sociais. Mas, a partir de 2013, esse processo entrou em crise. “A realidade é que os bancos e outros intermediários financeiros demoraram pouco para aprender a drenar o aumento da capacidade de compra do andar de baixo da economia, esterilizando em grande parte o processo redistributivo e a dinâmica de crescimento”, escreve Dowbor no livro.

Segundo ele, “trata-se da esterilização dos recursos do país pelo sistema de intermediação financeira, que drena em volumes impressionantes recursos que deveriam servir ao fomento produtivo”.

 

Fonte: Sindicato dos Bancários de BH e Região com Rede Brasil Atual

 

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