Em artigo, Maria Rita Serrano, que é representante suplente de empregadas e empregados no Conselho de Administração da CAIXA, analisou os desafios dos trabalhadores do banco no atual momento. Confira, abaixo, o texto na íntegra:

 

O primeiro semestre deste ano foi marcado por um movimento de resistência – fundamental para a sociedade – em prol de uma Caixa 100% Pública. Percorri o País fazendo esse debate. No dia 22, em Curitiba (PR), participei de audiência pública na Assembleia Legislativa que reafirmou a defesa da Caixa 100% pública, ampliando a discussão para o papel do próprio sistema financeiro.

Com a retração no crédito verificada no primeiro trimestre deste ano e os lucros dos bancos crescendo em aplicações em títulos do Tesouro, o foco desse encontro foi o fato de que os bancos privados são concessões. Portanto, deveriam, também, investir em políticas públicas, da mesma forma que o Banco do Brasil pode e deve ampliar sua vocação para o desenvolvimento.

Já em todas as últimas reuniões do Conselho de Administração da Caixa (CA), do qual participo, questionei sobre os rumos que a empresa poderia tomar caso prevalecesse a tese de abertura de capital. Após tamanha pressão vinda da sociedade e movimentos sindicais e associativos, o governo acabou por recuar. E nos últimos dias ocorreram os encontros estaduais dos empregados da Caixa pelo País, evento que antecede o Conecef, o congresso nacional, e apresenta perspectivas e reivindicações dos empregados.

Estive presente no congresso do estado de São Paulo e, com base em dados de pesquisa do Dieese e outros que pesquisei especificamente junto à Caixa, pude fazer uma explanação sobre o perfil dos trabalhadores do banco e a atual conjuntura brasileira. A primeira constatação, bastante significativa, é de que nos últimos anos (entre 2004 e 2013) o total de bancários em empresas públicas e privadas praticamente se igualou (cerca de 245 mil contra 266 mil nos privados), com ênfase no fato de que quem cresceu foram os bancos públicos. Mas a contratação, expressiva na Caixa, é ponto ao qual devemos nos ater nesta campanha 2015, pois tudo indica que haverá mudança nesse cenário.

Antes que essa discussão seja iniciada é preciso destacar outros dados: em 2014, a Caixa contava com 102.067 bancários, dos quais 54,57% homens e 45,43% mulheres, quase o mesmo do perfil geral da categoria. A maior parte dos trabalhadores da Caixa tem até 10 anos de banco (60,2%) e 75,15% possuem nível superior de ensino, enquanto na categoria são 68,56%. Nesse mesmo ano, sua participação no mercado chegou a 19,8% em crédito total, sendo 67,7% em Habitação, 35,7% em Poupança e 8,5% em Fundos de Investimento. Consolidou-se como o 3º maior banco em ativos, 4ª maior gestora de fundos do Brasil, sendo a 5ª marca mais valorizada no País.

Esses dados mostram que o perfil da empresa e dos empregados sofreram drástica mudança nos últimos 10 anos, o que pode exigir um novo olhar e atitude das lideranças e das entidades representativas. É um panorama que nos remete agora a debates fundamentais nas proximidades da campanha nacional unificada dos bancários. A primeira questão é justamente a do emprego: embora a Caixa tenha sido recordista em contratações se comparada aos demais bancos, e ainda exista necessidade para novas admissões, é de se esperar que ocorra um refluxo, e temos que estar atentos para reagir e buscar alternativas.

Outra questão fundamental é a da retração do crédito imobiliário, que é ofertado, em grande parte, com recursos captados na poupança. Ocorre, porém, que a taxa de juro alta vem tornando essa aplicação pouco competitiva, e os recursos estão migrando para alternativas mais rentáveis. O impacto na Caixa por certo será maior do que nos bancos privados que, como dito acima, deveriam, mas não investem em programas sociais.

Como a maioria dos trabalhadores brasileiros os empregados da Caixa têm diante de si grandes desafios nesta campanha salarial, mas há especificidades que precisam ser apontadas e discutidas. Defender a atuação da Caixa como indutora do desenvolvimento e operadora dos programas governamentais é do interesse dos trabalhadores e da sociedade. Limitar sua atuação atrasa a retomada do desenvolvimento. Como representante do CA e do movimento sindical, quero dizer que estamos atentos a essa realidade, assim como à abertura e repercussão desse importante debate, que já começou.

 

Maria Rita Serrano é funcionária da Caixa, representante eleita dos empregados no Conselho de Administração da empresa, diretora do Sindicato dos Bancários do ABC e da Contraf – CUT e Mestre em Administração.

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