Quando bater a meta custa a saúde

21/07/2026

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Quando bater a meta custa a saúde

Por Ramon Peres, presidente do Sindicato

 

O adoecimento mental deixou de ser uma questão periférica no mundo do trabalho. No setor bancário, ele se tornou o principal motivo de afastamento. Dados apresentados pelo Dieese, em julho de 2026, revelam uma realidade que já não pode ser tratada como problema individual: a própria organização do trabalho está adoecendo milhares de pessoas.

A Consulta Nacional dos Bancários, com quase 55 mil participantes, mostra a dimensão do problema. Para 72,6% dos trabalhadores, o ambiente nos bancos causa impactos negativos à saúde mental. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 40% utilizaram medicamentos controlados, como antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes.

A cobrança excessiva por metas aparece no centro desse sofrimento. Entre os entrevistados, 67% relataram preocupação constante com o trabalho; 59%, cansaço e fadiga; 47%, desmotivação e vontade de não trabalhar; 42%, crises de ansiedade ou pânico; e 39%, dificuldade para dormir até mesmo nos finais de semana. Apenas 7% afirmaram não sofrer impactos.

O trabalho mudou e o adoecimento também

Em 2012, as doenças osteomusculares eram a principal causa dos afastamentos acidentários entre bancários. Em 2024, os transtornos mentais e comportamentais passaram a representar 55,9% desses afastamentos. Entre os benefícios previdenciários comuns, responderam por 51,8%. No período de 2012 a 2024, a concessão de benefícios ligados à saúde mental na categoria cresceu 56,6%.

O setor financeiro, portanto, não é apenas parte de uma crise nacional. Ele ocupa posição de destaque nela. Em 2024, os bancos múltiplos com carteira comercial ficaram em primeiro lugar entre as atividades econômicas nos afastamentos acidentários por saúde mental, com 1.946 casos.

A realidade bancária reúne vários fatores reconhecidos pelo Ministério do Trabalho como riscos psicossociais: competição predatória, assédio, discriminação, ritmo excessivo, ausência de apoio das chefias, conflitos internos, reestruturações permanentes e insegurança diante das mudanças tecnológicas. A digitalização também ampliou a cobrança, acelerou o ritmo e tornou mais difícil separar trabalho e vida pessoal.

A responsabilidade é coletiva

O Manual de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais é claro: os riscos psicossociais decorrem de problemas na concepção, na organização e na gestão do trabalho. Isso significa que a resposta não pode se limitar a palestras motivacionais ou à recomendação de que cada trabalhador aprenda a suportar melhor a pressão.

Prevenção exige rever metas, dimensionar adequadamente as equipes, combater o assédio, assegurar pausas, fortalecer o apoio das chefias e estabelecer limites reais à jornada. Também exige garantir o direito à desconexão e debater a jornada semanal de quatro dias, proposta pelo Comando Nacional dos Bancários.

Cuidar da saúde mental não é ensinar o trabalhador a se adaptar ao adoecimento. É transformar as condições que o produzem. Os números deixam uma mensagem incontornável: quando a busca por resultados ultrapassa os limites humanos, o problema não está em quem adoece, mas no modelo de trabalho que adoece.

 

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