Crédito em 2026: entre juros altos e a disputa pelo futuro do financiamento no Brasil

14/01/2026

Notícias
Crédito em 2026: entre juros altos e a disputa pelo futuro do financiamento no Brasil

Matéria da série Por Dentro do Sistema Financeiro - Jornal GGN e Contraf-CUT
Por Tatiane Correia, do Jornal GGN

O mercado de crédito brasileiro vive uma transformação estrutural que pode redefinir, ou aprofundar, desigualdades históricas no acesso ao financiamento. A convivência entre uma política monetária persistentemente restritiva e uma revolução digital acelerada desenha um sistema financeiro de duas velocidades, no qual o custo do dinheiro continua alto para a maioria, enquanto nichos específicos passam a acessar crédito mais barato, ágil e tecnicamente sofisticado.

Mesmo com a inflação relativamente controlada, o crédito segue caro, escasso e seletivo. O resultado é um freio estrutural ao crescimento econômico, à capacidade de investimento das empresas e ao consumo das famílias, em especial das camadas mais vulneráveis e dos pequenos negócios.

As projeções para 2026 apontam para um ambiente macroeconômico pouco favorável à expansão do crédito. Segundo estimativas de mercado, a taxa Selic deve permanecer em torno de 12,75% ao ano, enquanto o PIB cresce apenas 1,6%. A inflação, medida pelo IPCA, tende a ficar próxima ao teto da meta, em torno de 4,16%, fornecendo ao Banco Central o argumento técnico para manter a política monetária restritiva.

O paradoxo brasileiro fica evidente na comparação internacional. O crédito ao setor privado corresponde a 76% do PIB, bem abaixo de países como o Chile (103%) e muito distante das economias centrais, como os Estados Unidos, onde se aproxima de 200%. O Brasil não sofre de falta de demanda por crédito, mas de um custo estruturalmente elevado que inibe sua expansão.

Fintechs e a disputa pela base de clientes

Outro vetor de mudança vem das fintechs de crédito, cuja capilaridade permitiu a milhões de pessoas o acesso a ferramentas como cartão de crédito e linhas de empréstimo que seriam negadas pelos bancos vistos como tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, permitiu uma exploração sem limites do pequeno poupador, submetendo-o a taxas de juros exorbitantes.

As fintechs também deslocam o centro do poder financeiro para quem controla dados, plataformas e relacionamento com o cliente, um movimento que pode redefinir o papel dos bancos, mas não necessariamente reduzir desigualdades de forma automática.

O outro lado da moeda: inadimplência e seletividade

Apesar do discurso de democratização, os riscos permanecem elevados. O Banco Central alerta para a deterioração da qualidade do crédito, com aumento dos ativos problemáticos entre famílias e micro, pequenas e médias empresas. O campo rural, em especial, apresenta sinais preocupantes, com inadimplência acima de 8%.

Desta forma, pode-se dizer que o cenário para o crédito em 2026 tende a funcionar de duas maneiras distintas: de um lado, o crédito tradicional, caro, concentrado e dependente de uma política monetária rígida. No segundo, um ecossistema digital valendo-se do consignado e da garantia do FGTS para impor taxas exorbitantes ao consumidor, com um mínimo de risco. Seja qual for o modelo, o crédito está longe de ser um direito social, para se transformar em uma máquina de concentração de renda.

Outras notícias