Por Ramon Peres, presidente do Sindicato
Na mesa de negociação, os bancos tentam construir uma narrativa de dificuldade: dizem que os lucros caíram, que a rentabilidade está pressionada e que a concorrência das instituições digitais ameaça o setor tradicional. Mas os próprios balanços desmontam esse discurso. O sistema financeiro continua altamente lucrativo, enquanto bancárias e bancários enfrentam demissões, fechamento de agências, sobrecarga, metas abusivas e perda de poder de compra.
Em 2025, os cinco maiores bancos do país lucraram R$ 124 bilhões. Houve uma redução média de apenas 1,9% em relação a 2024, provocada principalmente pela queda do resultado do Banco do Brasil. Sem o BB, os demais grandes bancos registraram crescimento médio de 16,7%. Itaú, Bradesco, Santander e CAIXA ampliaram seus lucros em 13,1%, 26,1%, 12,6% e 18,7%, respectivamente.
No primeiro trimestre de 2026, os cinco maiores bancos somaram outros R$ 29,8 bilhões em lucro. A queda média de 11,1% também foi concentrada nos bancos públicos, enquanto Itaú e Bradesco aumentaram seus resultados em 10,4% e 16,1%. Portanto, uma variação pontual não pode ser usada para esconder uma lucratividade histórica: entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos cresceu 178% em termos reais, já descontada a inflação.
Também é preciso separar lucro de rentabilidade. Em 2025, o retorno médio sobre o patrimônio, o chamado ROE, ficou em 16%, quase quatro vezes o IPCA de 4,26% e acima da Selic média de 14,33%. Desde 2003, a rentabilidade bancária permanece muito superior à inflação e, mesmo no período posterior à pandemia, continuou acima da taxa básica de juros.
Os bancos também exageram quando usam instituições deficitárias para pintar um quadro de crise. Dos 164 bancos analisados em 2025, apenas 28 apresentaram ROE negativo. Eles representam somente 1% do patrimônio líquido de todo o setor. Ou seja: há bancos com resultado negativo, mas são instituições pequenas, sem peso suficiente para caracterizar qualquer crise sistêmica.
A alegação de que a concorrência dos bancos digitais estaria sufocando os tradicionais também não resiste aos dados. Em 2025, os bancos privados lucraram R$ 104,5 bilhões e os públicos, R$ 66,8 bilhões. Juntos, somaram R$ 171,3 bilhões e responderam por cerca de 76% do lucro do sistema financeiro. As instituições digitais ficaram com R$ 30,9 bilhões, ou 10,5% do total. Os digitais crescem, mas estão muito longe de retirar dos grandes bancos tradicionais sua posição dominante e sua enorme capacidade de gerar lucro.
Enquanto os resultados permanecem bilionários, os bancos reduzem o investimento em quem produz esses resultados. A massa salarial real da categoria caiu 17% desde 2014 e mais 2% somente em 2025, consequência direta da redução de empregos. Nos cinco maiores bancos, as despesas de pessoal caíram 15% desde 2019; quando se retira a PLR da conta, a redução chega a 17%. É o retrato de uma estratégia baseada em demissões, fechamento de agências, menos atendimento à população e mais trabalho para quem permanece.
O argumento de que a folha pesa demais também é falso. Somente as receitas com tarifas e prestação de serviços cobriram 123% de todas as despesas de pessoal dos cinco maiores bancos em 2025. Excluída a PLR, essa cobertura sobe para 142%. Em outras palavras: apenas uma parte das receitas bancárias já paga toda a folha e ainda sobra.
Para a alta direção, porém, não há austeridade. A remuneração anual prevista para 2026 nas diretorias estatutárias de Santander, Bradesco, Itaú e Banco do Brasil alcança, em média, R$ 10,3 milhões por diretor — 120 vezes a remuneração anual total de um escriturário, incluindo salário, 13º, férias, tíquetes e PLR. Na média dos quatro bancos, essa remuneração crescerá 13% em 2026; no Santander, 33%, e no Banco do Brasil, 41%.
A mesma desigualdade aparece na PLR. Desde 1997, a PLR “cheia” do cargo de caixa teve crescimento real de 140%, enquanto o lucro dos bancos aumentou 360% — 2,6 vezes mais. Embora a Convenção Coletiva permita distribuir até 15% do lucro líquido, os grandes bancos privados distribuíram, em média, apenas 5,9% em 2025. Há espaço para uma PLR maior, mais justa e mais transparente.
VA e VR também precisam ser valorizados. Entre 2019 e 2025, a alimentação dentro de casa subiu 74%, enquanto os benefícios foram reajustados em 52%. O VA acumulou perda real de 13%. Para recuperar a mesma relação que tinha com a cesta básica em 2019, o valor atual de R$ 924,47 precisaria subir cerca de 40%, chegando a R$ 1.293,73. Já o VR de R$ 53,33 não cobre sequer o preço médio de uma refeição no Brasil, de R$ 56,86.
Os bancos têm lucro, rentabilidade e condições para atender às reivindicações da categoria. Em 2026, 87,5% dos reajustes salariais negociados no país ficaram acima da inflação, com ganho real médio de 1,57%. A reivindicação de 5% de aumento real dos bancários é justa, necessária e compatível com a capacidade econômica do setor. Não aceitaremos que justamente o setor mais lucrativo da economia tente impor arrocho a quem constrói seus resultados todos os dias.
Mas números, sozinhos, não vencem uma campanha. É a mobilização de bancárias e bancários nas agências, departamentos, plataformas, reuniões, plenárias e atividades convocadas pelos sindicatos que transforma dados em força na mesa de negociação. Quanto maior a participação da categoria, maior será nossa capacidade de conquistar aumento real, PLR valorizada, VA e VR dignos, defesa dos empregos e melhores condições de trabalho. A vitória depende da nossa unidade, organização e luta.
Dados: Rede Bancários/DIEESE, com base nos balanços dos bancos, RAIS, Banco Central, IBGE, CVM, CCT e ACTs da categoria.